Conversa no café


Conversando com minha “aluna experimental” de orientação aos estudos, entre um café carioca e um paulista, ela deixou escapar um sentimento confuso e misturado fruto de sensações como impotência, incapacidade, "burrice" etc. Disse ainda que se via como “um ser inexistente", "um nada" e, embora fosse uma pessoa com muita vontade de viver, sentia-se presa a um obstáculo intransponível que a impediria de sorrir no início do dia e de sonhar ao cair da noite.

, Qual seria esse obstáculo? A aprovação em um concurso público.

. Vou partilhar aqui, em três tópicos, o que eu disse em seguida:

. PRIMEIRO: pensamentos negativos. Pegue um bloco de papel (ou mesmo o celular) e comece a anotar todos esses pensamentos aflitivos. Custe o que custar, demore o tanto que for necessário, REGISTRE TUDO o que deverá ser resolvido NO FUTURO. Anote que tem que “levar o cachorro ao veterinário”, que precisa “conversar com o namorado sobre aquela marca de batom em sua camisa” ou que deve “comprar o presente de aniversário da tia Maria”. Observe que todas as anotações começam com um verbo no infinitivo, tal como um COMANDO A SER LEMBRADO. Guarde essa anotação bem junto ao corpo. Isso ajuda a mente a “não ter que lembrar que não pode esquecer-se de fazer algo” e deixa espaço para fazer outras coisas, como estudar ou dormir em paz.

. SEGUNDO: sentimento de inferioridade. Não vou mentir: a verdade é que somos seres inferiores. Sentir-se dessa forma é uma constatação do óbvio, em minha opinião. É como se sentir mortal. Afinal, quem é não é mortal? Quem pode se sentir importante diante do Universo? Todos nós somos seres inferiores e não apenas aqueles que não conseguem aprovação em determinado concurso público. Há quem nada faça na vida sob o argumento de que “cedo ou tarde irá morrer”. Mas isso não faz sentido, porque se vamos morrer (e vamos!) devemos aproveitar o tempo que temos enquanto vivos para fazer aquilo que os mortos não podem fazer, confere? Nessa mesma linha, se somos inferiores (e somos!), devemos aproveitar para fazer aquilo que os “superiores”, por definição, não podem fazer: tentar, errar, tentar, errar, tentar, errar, tentar, errar, tentar... Outra dica: faça o bem a uma pessoa completamente desconhecida. Faça o bem pelo bem. Faça uma caridade. Ajude um cego a atravessar a rua. Adote um cachorro. Faça algo sem querer nada em troca e garanto que o seu sentimento de “inferioridade” vai diminuir imediatamente.

. TERCEIRO: sentimento de despreparo. Não espere ficar pronta ou se sentir pronta. Eu não conheço ninguém “pronto” para a vida, você conhece? Não espere se sentir pronta para fazer algo. Eu não me sentia pronto para ensinar quando entrei em sala de aula pela primeira vez; eu não me sentia pronto para advogar quando escrevi minha primeira petição inicial; eu não me sinto pronto para ser pai, mas sou; não me sinto pronto para escrever esse texto, mas já estou quase no final. Não espere ter compreendido perfeitamente o capítulo I para então iniciar os estudos do capítulo II. Apenas estude, faça, escreva, viva... Aos poucos você vai melhorando...

. . Agora sorria e vá estudar.

#filosofiadevida

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